terça-feira, março 11, 2008

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

monólogo para espelhos

- Não me cai bem esta máscara? Que tal esta? Ou esta? Ah, já não sabes mais quem sou. E se te contar que sou mil, um trilhão. Ou mais: que abismos e multidões inteiras me habitam! O meu retrato eu não olho. O meu retrato está morto.E Dorian Gray me entenderia. É necessário que te mostre a face? Queres bater neste lado também? Não é esta a bagatela cristã? Só Jesus Cristo para mostrar cu, enquanto lhe estupram a alma. Não, não, não, eu não compro barato. Aceite que minha cretinice não vale mais que um salafrário de meia tijela. O meu jogo é sujo e como muitos chocolates provando cada verdade que não acredito. Minhas táticas são ardilosas e vils. No xadrez, por exemplo, é preciso saber que a Rainha é uma puta que come para qualquer lado; que o Rei é apenas um bibelô. O ataque não é a melhor defesa. É preciso observação. Caso sabes o que é isso? Contemplar? Se estou só, não espere que esteja bem acompanhado. Meus demônios internos são meus inimigos. Me pedes calma e sossego? Não posso. Tenho sempre um novo feto a latejar na minha cabeça. Tenho sempre uma lápide pra plantar no coração. Sou um oroboro a comer a própria carne. Se me encontro estrangeiro e no degredo, me deixe exilado. Do muito que eu li e do pouco que eu sei quase nada me resta. Só o que sobra é esse comboio de cordas chamado coração. Ah, pouco original que sou, ao plagiar meu poetas preferidos, pois bem que venham os mortos reclamarem seus direitos, estarei perdido e mal pago. Estou tão vencido como lúcido. Estou tão doente quanto minha fúria. Meu ódio ainda não é meu medo. Meu medo é feito de mentiras. E se sou fadado a ser um mentiroso. Como saberá se não estou a mentir a infâmia da mentira? E se estou apenas a te confundir. Enquanto rio e aplaudo tua confusão, tu me chamarás de louco e me negará três vezes.

Antonio, em frente ao espelho, sorri, está pronto para sair para rua.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Epitáfio

Aqui jaz um clown. Seu último palco foi esta esquina.

Aqui jaz um poeta. Seu último poema foi esse o silêncio.

Aqui jaz um mímico. Seu último gesto foi essa cova.

Aqui jaz um jazzista. Seu último jazz, agora jaz.

terça-feira, janeiro 22, 2008

As Bacantes

Quando menina eu sonhava em ter um bordel. Minha vó contava histórias extasiantes sobre a casa do final da rua. Era povoada de demônios, bandidos, malfeitores e mulheres rebordosas. Lá o dia começava quando as estrelas já estavam altas no céu. Eu escutava todos aqueles risos embaixo das cobertas, o que mais poderia ser tão engraçado? Eu ria junto, especialmente da mulher do riso bolha, era uma risada tão gostosa que lembrava uma bolha de sabão: eu imaginava aquela bolha sair de dentro de um corpo bem gordo e ir explodir nos ouvidos alheios, causando muitas cócegas.
Eu me escondia na árvore que parecia uma escultura da casa da vovó e ia lá espiar. De manhã era uma casa sonolenta, só podia sentir, do vão da janela, alguma fumaça, um cheiro forte de café e esmalte. Eu tentava entender as palavras de uma cristã-católica-ortodoxa ao contar que aqueles abutres já tinham ceado toda carne fresca da casa. Pobres fantasmas da luxúria!
Quem teria sido o assassino dessa carnificina? Nunca me esqueço a primeira vez que vi uma arma e sangue. Era uma glock, uma pistola comum, foram apenas três tiros.
Esta era uma história de uma princesa, que vivia em um castelo cheio de bruxas barulhentas e tão fumantes quanto chaminés, as bruxas andavam apáticas e velhas, se alimentavam mal, às vezes se injetavam algumas outras coisas. E a princesa vivia ali, alheia a tudo, como num conto de fadas, tinha regalias mil, era intocável e perversa. Aquela bonequinha de luxo tinha os desejos mais sádicos. A hora do dia que mais gostava era quando uma das bruxas do castelo gritava, gritava o dia todo, por causa das torturas, tinham a trancado em quarto escuro para não se injetar mais. Gritou durante três dias e três noites, enquanto as festas aconteciam. A princesinha ria, ria alto quanto maior o sofrimento da bruxa.
Um dia a princesa desejou sentir aqueles outros gritos que ela também ouvia, aqueles que não eram de dor, eram gritos de cadelas no cio. Escolheu o bandido mais sujo da casa. Nada mais se soube da princesa após três meses.
Ele se enforcou. Ela foi morta com três tiros.
A sociedade não perdoa um assassino, mas eu não perdoei aquela mente sádica da princesinha. O cara sujo a visitou todas as noites como um cão fiel, sem tocá-la, conforme ela queria, mas ele foi bobo contou todos os seus segredos, todas suas sujeiras, todas suas fraquezas, ela soube o sugar até a última gota, soube esfregar na cara cada palavra. Justo quando ele estava a amando, ela o traiu com o moço mais limpo que um pai-otário e bunda suja havia trazido para ele aprender a ser homem de verdade.
Ela morreu enquanto gozava em cima do rapaz, o rapaz saiu ileso, não tinha culpa, era um garoto de treze anos que vai ter dificuldades para trepar a vida toda. O assassino não foi o bandido cara suja. O assassino real dessa história de crime e castigo foi a vaidade daquela princesinha.
"Ah, menina! Sai já daí". Eu adorava todas aquelas cores no meio da escuridão. Minha vó não percebia, mas nós tínhamos a melhor caixinha de música da cidade e ficava logo ali na esquina, as composições de Noel até os lamentos de Lady Day. A música funcionava dentro daquela casa como um alento, como a imaculada diversão, talvez por isso ela estivesse 24h por lá. Eu pensava era mesmo nas dançarinas e nas roupas de pavão que elas tinham, muio brilho. Lá parecia um eterno carnaval. Eu adorava aquele jeito Moulin Rouge brasileiro que o bordel tinha. Às vezes as moças iam comprar uns tomates na nossa banca que ficava no meio da praça. E elas me adoravam, diziam que eu era a mocinha mais linda do bairro. Às vezes elas me traziam uns lacinhos de fita das roupas que eu escondia para ninguém achar, aquilo era o meu tesouro. Minha vó dizia que elas eram bruxas más que comiam crianças medrosas como eu, mas eu nem era medrosa e nem achava que elas eram bruxas, para mim eram as estrelas dos musicais que Hollywood não havia encontrado! Eu só sabia das histórias que minha vó me contava e das versões que eu criava para elas. Por exemplo, na minha história, a princesinha que morreu era uma bruxa feia e velha, já o homem sujo que se matou era um menino medroso, e o menino de treze anos era um conquistador barato, tipo o Don Juan. Quando eu era menina, eu tinha um bordel. O bordel da minha imaginação que era tão fantástico como o País das Maravilhas, tão encantado quanto a Terra do Nunca e tão inocente quanto essa camélia que eu ainda guardo no meu diário.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Quinteto Fantástico

Joga a chave!
Quê meu coração
não conhece entrave.
...

Senhora Morte
pára de azarar
com a minha sorte!
...

Vida safada,
abra as pernas
não se faça de rogada!
...

Tempo ingrato
com contagotas
me maltrata em trapo!

...

Tempo, vê se esquece!
Deixa eu passar não me apresse!

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Tempo, vou te fazer um pedido: tempo tempo tempo

Uma mesa, dois copos, um com canha, no outro, uma mistura de uísque com o elixir da Eternidade. Sentados de frente estão uma mortal e o Tempo, disfarçado de amante e apaixonado. Ouve-se apenas a mortal:
- Memória? Não me venha com essa imperatriz esnobe que é a certeza dos fatos. O único fato é pensar, só temos um ato que é sentir. É sabido e protocolado que o que falha à memória, a imaginação preenche. Como saberemos se falamos realmente da mesma coisa? Se no caminho essa arquiteta de construções frágeis que é imaginação não surrupiou algum capítulo dessa estória, escreveu mais alguns caracteres, não apagou algumas linhas? Não estou variando, nem da cabeça e nem com as palavras. Mas vens me falar do dito pelo não dito? E continuas a me falar de ontem? Ontem não foi ontem, não aches que estou te explicando para confundir. Não, mesmo. Ontem ainda não acabou, meu bem, está em nós agora e na ponta da tua língua. Te pego pelas palavras, percebe? O passado continua a incidir. Não vês que a cronologia dos fatos é feita só para reconstituir cenas de crimes, afirmar a temporalidade de Cristo na Terra e ensinar uma caduca História para as crianças? Passado, Futuro e Presente além de conjugarem verbos, levam a gente à lucidez completa, tenha cuidado, lucidez demais faz mal ao coração! Vou te contar um segredo: esse maldito Tempo é um Lord muito poderoso, além de fanfarrão e obviamente humorista! Ele é ilusionista de fama. A gente finge acreditar nesse divisaozinha como se pudesse separar as pedrinhas do feijão, mas o Tempo gosta mesmo, meu amor, é do que está acontecendo, do inacabado! Ele tem um caso eterno com gerúndio! Porque é o gerúndio que nos aponta para a fusão do passado, futuro e presente: ele está acontecendo, estava acontecendo e estará acontecendo. Por isso, vê se esquece essa história porque na vida tudo só acontece! Louca? Me chamas de louca? Loucura no mundo é a fome. Achas que lembrando datas e números estás a me persuadir? Achas que conhece melhor a História e que dás mais importância a ela por isso? Veja só meu bem eu acho que esse dia 20 de janeiro de 2020 é meio cabalístico, não? Faz vinte dias que a gente não se fala, faz questão que eu numere para que possas saber melhor? Não precisa, é claro que não precisa, sabe porquê? Porque é a impressão guardada desse dia que conta mais! O tempo está em nós e essas rugas apontam que o rabecão pode bater na porta, só espero que você não esteja sentado esperando que sua hora chegue. O tempo não é tão feito de fatos assim, ele é feito de emoções, emoções que incentivam batalhas e desfazem amores. O tempo não pára para lembrar. O tempo não tem tempo para isso. O tempo só pára (parece parar) para sentir.
LIDA BANDIDA,
AOS MILIGRAMAS
ESCORRE MINHA VIDA.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

terça-feira, dezembro 12, 2006

Trechos de Caio Fernando Abreu

Para homenagear a delicadeza dos ferimentos,
relembro trechos dos contos Harriet, Para uma ah vem cá partindo e Pequenas Epifanias:
"sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor pois se eu me comovia vendo você pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo meu deus como você me doía de vez em quando eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno bem no meio duma praça então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta mas tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme só olhando você sem dizer nada só olhando e pensando meu deus mas como você me dói vezenquando.” (Harriet)
Ah: sabe entre duas pessoas essas coisas que devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dize “...” eu vou te dizer todas as coisas, é por isso que estou falando, “...” é fundamental que você preste atenção em todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir os sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas “...” está bem, eu espero aqui do lado da janela enquanto o ônibus não sai, espera, as maçãs ficam comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai........................................................................................................................................................................................................................................................................................................... sim, sei, eu vou escrever, não, eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? Escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malar e bolsas, fica tranqüila, esse velho não vai e incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, “...” eu preciso de muito silêncio e muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê.” (Para uma ah vem cá partindo)
"Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece. De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia. Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria. Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.” (Pequenas epifanias)

sábado, dezembro 09, 2006

Pequena ironia norte-americana (e francesa)

A LIBERDADE É UMA ESTÁTUA!

(E FICA SOZINHA EM UMA ILHA)

REPITO

Para Gabriela Link

Poeta bom é poeta morto!
Antipoeta bom é antipoeta mudo.

terça-feira, dezembro 05, 2006

Matem a saudade!

Aos poucos foram rasgando as carnes,
o clitóris, o coração e a massa cinzenta.
A miúde foram secando as latências do sangue:
mãos e pés.
Aos pífios foram embora os movimentos rítmicos...
o piscar dos olhos, o molhar dos lábios.
Aos minímos foram, ainda, umas manias!
Ranger de dentes, suar frio, respirar pulsado.
Nada foi que perdeu, nada foi que lhe tiraram





nada te mata em mim .

Falecer é uma questão de esquecimento.
Que adianta amputar e matar?
Levem também a nostalgia!
Tirem esse corpo pesando sobre outro!
Lavem esse gosto de pele da boca! Esse aconchego!
Levem o retrato mal curado da parede!
O cheiro do quarto, do trapo, da tralha, do travesseiro, de todos os lugares.
Amassem os sentimentos que carrega no bolso!
Levem o velar do sono!
Vão embora com as rezas ao pé do ouvido!
Sumam as juras gritadas ao tripé da janela!
Desapareçam as más palavras e verbos esbofeteados na cara!
Vão! Antes da tempestade!
Vão para que continue no idílio da morte.
Vão antes que a saudade se lembre!

AMOR
TUMOR


Dá me! Dá me tu olvido y te daré mi libertad!




sexta-feira, dezembro 01, 2006

Poetas e Antipoetas

o poeta me chama de poesia.

a antipoética é de quem se livra do livro.
a poética é de quem o livro se livra.

a antipoética é do que existe apenas.
a poética é do que sobrevive apenas.

a poesia me chama de poema.

a antipoética, instinto.
a poética, intuito.

a antipoética, corpo.
a poética, corte.

o poema é marco zero da poesia.

a antipoética corrói o poema.
a poética come a poesia.

a antipoética inventa poetas.
a poética contamina poetas.

a poesia é ponto g do poema.

a antipoética é o antiantípoda.
a poética é o antiápex.

a antipoética anuncia.
a poética renuncia.

a antipoética é pra quem esbraveja ser o antipoeta.
a poética é pra quem calunia ser poesia.

quinta-feira, novembro 30, 2006

LEMBRANÇAS DE CRIANÇA (a la Julio Cortázar)

Instruções para contar até 5:
Abrir bem grande toda a mão pequena, fixando ângulos quase perfeitos. Assim, assim, fechar toda em punho, como se aprendesse pela primeira vez a pegar um lápis, e a cada palavra levantar um dedinho aleatório, não importa qual, só a quantidade, que claro, às vezes pode mudar de acordo com a relação que se dá dos dedos com a mão:
- Pimeio tem o um, dipois tem u dôis, e o têis, e... caco e inco!

Instruções para ser dramático em diversas situações:
Se te chamarem para limpeza, ajuda ou para qualquer coisa que não saiba nem o que é, ou apenas para dizer que está cansado enfim. É só colocar a mão sobre a testa de forma que pese um pouquinho, assim, virada com a palma para cima, mostrando as linhas da mão b-e-m soltinho. Depois o corpo faz um movimento de jogar-se pra si mesmo, num só tremer ondulado, então se diz bem pausado e acompanhando o movimento da frase, palavra por palavra: mão, corpo e tremilique :
- Ai, eu demaio!

Instruções para falar sobre fábulas em que Sapos da Lagoa se tornam Príncipes:
Depois da estória lida, então, fazer um comentário curto e que mostre todo o desenlace bem explicativo, ou seja, melhor ninguém faria, apenas outra criança, sem nenhuma churumela, sem nenhuma fama. Podemos usar palavras que não estão nos livros infantis, muito menos no vocabulário infantil, mas que ouvimos os adultos dizerem e, mais ou menos, instintivamente, sabemos quando usá-las:
- Ai tá bom! E o Pinpi si metafoso? Qui sapinho mulequinho!

Instruções para traduzir as frases de uma criança de 4 anos:
Igine que tu tein caco anos, nem maish, nem menush. Preste atenção como sua língua é afiada e imperdoável, aliás, como de qualquer outra criança. Pense que os adultos não tem a mínima dimensão do que uma criança pode fazer e dizer. Saber que uma criança de 4 anos formula frases contextuais e que reinterpreta o mundo com uma leitura própria. Saber, também, que o inesperado forma a poesia, e as crianças são seres que mais se apropriam do inesperado.

terça-feira, novembro 21, 2006

Quintana

Quintana era o quintal dos quintanares.
Lá os poemas voavam e cantavam.
Ora, ciscavam sentidos. Ora, comiam alpistes de solidão.
Havia simplicidade em flor. Oralidade, em orvalho.
Legiões de formigas a trazer letrinhas.
Multidões de abelhas a polinizar palavras.
Nem era milagre, era cada momento:
Brotava poesia.

sexta-feira, novembro 17, 2006

Paixão à to(n)a

Ora, me leve à toa
Não risque minhas linhas da mão
Com destinos
Quero riscos à beira do abismo
Seja o que for
Se atreva
Dê a cara a tapa
Me pinta com acordes
Partituras deslizantes de dedos
Não deseje o amanhã
Não sinta o hoje,
Só o agora.

Me leve à toa
Não trace meus passos em vão
Com projetos
Quero dançar, deitar e rolar
Seja como for
Se manque
Numa mesquinharia bem carnal
Bem terrena bem passional
Fique doente do coração
Me suje com palavras
Plenas e mentirosas
Diga que me renuncia

Ora, me leve à tona
Não finjas teus gestos
Com ensaios
Foge pra esse país das maravilhas
Assalta minha razão
Seqüestra minha lucidez
Não pari de ti, me parti pra ti!
Faz juras, jura, testemunha minha estricnina
Em te querer
Me encha de graça
Vem sem pressa
Pode vir tentado e com medo
Que te pego pela gola e pelo chão

Me leve à tona não me leve à toa não
Não tenha hora marcada pra matar
Pra morrer: Assassino moribundo!
Me mata me come me flagre se dane me ame!

quinta-feira, novembro 16, 2006

Carta de irrecomendação

Renomadíssimo, Sr. Dr. Positivismo:
Mostra essa máscara fajuta de cultura.
Instrução do homem que veste uma farda de exclusão.
Marcha, caminha progressivamente e em ordem, sem amor.
Sempre no sentido de amputar,
castrar,
degolar
e calar
tudo
do campo semântico do inesperado e momentâneo.
A moral é seu cão de guarda cuidador da hipocrisia.
A ordem, arma na mão para assegurar.
O progresso seu tanque destruir.
Ah, óbvio ululante, filho pródigo e legítimo, tão cronológico.
Lei imutável e biológica.
Vai estagna cada um em seu devido lugar! Uhmf!
Diferencia os diferenciados, privilegia os privilegiados!
Estupra o coletivo, exalta o individualismo.
Cumpre tua missão de cegueira, de mudez e surdez.
Vai, vai, passa, te passa!
Bate, bate, bate, tortura e desfigura o debate, nega a discussão.
Vai infeliz! Fixa, automatiza a autocrítica. Maquiniza a crítica!
Engendra tua maquinaria de partes autônomas que funcionem junto, sem inter-relação, sem fusão.
Impõe um indicativo de vida correta e um homem virtuoso.
Contra a vida, falseia qualquer própria vontade.
Coisifica e materializa o trabalho como única saída.
Vai, Sr. Dr., modela, enquadra, ajusta os parafusos do teu cidadão de bem, teu homem de bem.
Põe na fogueira, faz inquisição aos vagabundos, artistas e relapsos.
Estrebucha a criatividade, a invenção e a vontade. Põe em guetos a espera do gás.Acolhe teus filhos para o caminho reto, cumpre teu fado, com um machado.

segunda-feira, novembro 13, 2006

Julinho da Adelaide ou Chico da Dona Adelaide CONVOCA:

1. Subúrbio (Chico Buarque/2006)
Lá não tem brisa Não tem verde-azuis Não tem frescura nem atrevimento Lá não figura no mapa No avesso da montanha, é labirinto É contra-senha, é cara a tapa Fala, Penha Fala, Irajá Fala, Olaria Fala, Acari, Vigário Geral Fala, Piedade Casas sem cor Ruas de pó, cidade Que não se pinta Que é sem vaidadeVai, faz ouvir os acordes do choro-canção Traz as cabrochas e a roda de samba Dança teu funk, o rock, forró, pagode, reggae Teu hip-hop Fala na língua do rap Desbanca a outra A tal que abusa De ser tão maravilhosa Lá não tem moças douradas Expostas, andam nus Pelas quebradas teus exus Não tem turistas Não sai foto nas revistas Lá tem Jesus E está de costas Fala, Maré Fala, Madureira Fala, Pavuna Fala, Inhaúma Cordovil, Pilares Espalha a tua voz Nos arredores Carrega a tua cruz E os teus tambores Vai, faz ouvir os acordes do choro-canção Traz as cabrochas e a roda de samba Dança teu funk, o rock, forró, pagodeT eu hip-hopFala na língua do rap Fala no pé Dá uma idéia Naquela que te sombreia Lá não tem claro-escuro A luz é dura A chapa é quente Que futuro tem Aquela gente toda Perdido em ti Eu ando em roda É pau, é pedra É fim de linha É lenha, é fogo, é foda Fala, Penha Fala, Irajá Fala, Encantado, BanguFala, Realengo...Fala, Maré Fala, Madureira Fala, Meriti, Nova Iguaçu Fala, Paciência...

CHEGA DE DIZER POR AÍ QUE FUNK, RAP, HIP-HOP, PAGODE NÃO É CULTURA.
É CULTURA. E A CONTRA-CULTURA ESTÁ AÍ PARA REAFIRMAR A CULTURA. CHICO NOS CONVOCA. VAMOS ESCUTAR!

sexta-feira, novembro 10, 2006

O poeta é um pedaço de dor

Para Mário Pirata

Na Idade Média:
TROVA DOR

Na Modernidade:
FINGI DOR

Na Pós-modernidade:
JOGA DOR

(peculiarmente, o poeta das crianças: BRINCA DOR)

terça-feira, novembro 07, 2006

De caso perdido

Esqueço de contar nos dedos quantos amores tive de uns tempos poucos pra cá,
não importa, não tive dedos suficientes, nem corações.
Quero mesmo é declamar meu amor e esparramar minha libido.
Intimidar os tímidos. Intimar os quixotes, macunaímas e andarilhos.
Assassinar paixões. Delatar murmúrios. Amputar o inexprimível.
Venha! Venham! Vá! Vã!
A vida é constante prosa
A vida é momentânea poesia
Perca os dedos e os corações.
Renda-se ao emaranhado de desejos.
Esteja de caso perdido!