Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009

Buena estrella, camarada!

Buena estrella é mais que uma louvação, camarada. É o que todo caminhante e marinheiro deseja: uma luz para poder seguir no meio da noite, uma direção em pleno dia. A buena estrella pode ser um aviso de sorte. Os antigos acreditavam que quando uma estrela brilhava alto, era sinal de bons presságios. Nos caminhos pela vida, o viajante percebe que qualquer direção leva a algum lugar. Qualquer caminho é um caminho, um poema no meio da estrada:

Caminante, no hay camino
se hace camino al andar,
al andar se hace camino
y al volver la vísta atras,
se ve la senda donde nunca se hade volver a pisar
Caminante no hay camino
sino estrellas en lo mar

E não esqueça da imensidão do oceano, de como o menino olha pela primeira vez para ele e pede ao pai que o ajude a enxergar! Descubra o mistério de léguas que diferenciam a nostalgia portuguesa da saudade bem brasileira, se acaso conseguires, me conte. Chuto, eu, que a semelhança está em Calabar que delega uma pista: no fundo somos todos sentimentais e herdamos do sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo, além da sífilis, é claro.

On the road, baby! Let's go, Rain Man. Your life awaits.

Ande nas ruas e faça delas sua nau. Vá a cemitérios, becos de esquina, botecos, cabarés, museus, bibliotecas e na casa da Mãe Joana. Deixe uma garrafa vazia para Fernando Pessoa e folhas em branco para Augusto Abelaira, eu sempre quis fazer isso.

Leia as instruções de como abrir um presente e apenas o abra quando a hora do esquecimento chegar. Por isso te digo de minha boca e de minha caneta que tem um tino pelo espanhol: Dá-me tu olvido y te daré tu libertad.

Gosto de dias de chuva, deixam os ipês malemolengas e preguiçosos, além de tudo ela expurga tudo que há de preso em mim. Não é à toa que lava calçadas e caminhos.

Evoé Iaiá!

Ainda fica em mim a curiosidade de quem imagina ruas estreitas, um cancioneiro em uma janela, uma cidade em confusão com o arcaico. Se encontrará os cafés dos meus escritores? Os meus livros preferidos, que tu nem mesmo sabe quais são. E os poetas? Como andarão os poetas mortos? E aqueles loucos e marginais vivos? Afinal, para mim só contam os que são loucos por alguma coisa, loucos por viver, loucos por falar, loucos para serem salvos, os que querem tudo ao mesmo tempo, os que jamais bocejam, que não dizem banalidades, mas ardem, ardem, ardem como fogos de artifício.

E te daria palavras de conforto: boa viagem, se cuide e ame. Mas detesto despedidas, cais do porto cheios de adeus e portas que se fecham, tenho muita dificuldade até em dizer tchau, porque seguido dele, vem um, até mais, a gente se vê. Minha vó já me avisava desde pequena para tomar cuidado: quem é vivo trata de sumir, os mortos é que às vezes aparecem.

Então é isso, buena estrella e um ponto final e de partida.

Segunda-feira, Agosto 11, 2008

A poesia não serve para nada que não seja poesia.

Às 16h da tarde ela já estava cheia de silêncios. Chegaria em casa e inundaria a sala com sons dos discos sem dizer nada. Era assim mesmo: silêncio e uma alma tranquila. Sentia vez enquando uns beliscões na consciência porque achava a mudez o crime mais grave que cometera. Afinal ela sempre tinha uma palavra pendurada na língua. Aborreceu-se em tomar conta das situações e ser admirada com uma indagação na testa. Fim do dia, fim da fala, só versos. Lia Manoel de Barros e ria de tanto 'apalpar as intimidades' daquilo tudo:
"Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!
O abandono me protege."
"Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas."
"Eu sou o medo da lucidez. Choveu na palavra onde eu estava."
"Penso que dentro de minha casca não tem um bicho: tem um silêncio feroz."
Mais nada fazia senão observar movimentos meticulosos de mosquitos criando letrinhas nos desajeitados vôos. Olhar também que as manchas de mofo na parede lembravam um pouco Kandinsky. Coisa bem esquisita gostar do barulho da água pingando, das portas batendo, do gato miando, e por acaso isso é o silêncio?! Enxergar arte onde não tem! Estar à merce do silêncio é muito perigoso. Pensou estar delirando afinal. Foi ali que ela se deu conta: estava em estado de poesia.

Sexta-feira, Junho 27, 2008

Textos abstratos sobre objetos concretos

Um pêndulo na sua constante e ininterrupta jornada de ir de um ponto ao outro a contar o tempo pode entender que um caleidoscópio é um objeto de função inútil? Afinal de contas, pra que serve um caleidoscópio, senão para enterter os olhos e fazer girar a imaginação? Um objeto que ignora o tempo, ora essas. Um caleidoscópio é um objeto de arte.
...

Uma pedra, olha ali, uma pedra: imóvel, dura, fria, moldada pela água e pelo vento. Uma pedra é sábia porque sabe esperar o tempo chegar nela. Uma pedra sabe que seu destino é pó. Uma pedra só espera, por isso é uma pedra.

Terça-feira, Junho 03, 2008

Elogio ao brega e ao ridículo

Amar nos faz brega. Realmente muito brega. E às vezes ridículos. Muito ridículos.Mas quer saber? Eu adoro ser brega e bem ridícula, aliás quanto mais, mais livre me sinto de qualquer amarra social. Não é um sentimento transgressor e nem contraventor, é um sentimento bobo que ignora qualquer intervenção externa. A impulsão de felicidade desconhece o que é alheio de si. É cego e é surdo a qualquer julgamento. Só não é mudo. Não quer saber de opiniões ou teorias ou blablablás. Só se quer amar e ponto. Com glamour de chocolates com vinho, com simplicidade de quem olha e se reconhece, com a rudeza da selvageria, com qualquer coisa que satisfaça e preencha. Ele é uma estrada sem rumo e sempre em construção. Quer tudo, quer ser todo, completo, pleno. Desconhece a ruína e o pó. O amor não sobrevive no niilismo.

Sexta-feira, Abril 11, 2008

Chica

Chica, só queria fazer uma canção
E contar que sou um vadio demente
Que culpa tenho se amar é minha limitação?

Neném, eu sou um cara que só mente
E já estou quase doente do coração
Meu bem, nunca me acorrente
Porque a coisa que não agüento é prisão

Chica, não me leve a mal
O meu crime é ser suspeito de um estranho ritual:
Se quero estar só e sem você ao meu lado
Jamais espere que eu esteja bem,
se comigo estou mal acompanhado.

Chica, só queria fazer um refrão
E cantar que sou um violeiro somente
Que culpa tenho se tocar é minha maldição?

Neném, eu sou um cara que só sente
E já estou quase farto da imaginação
Meu bem, sempre me enfrente
Porque o que eu gosto é do seu furacão.

Chica, não me leve a mal
O meu crime é ser suspeito de um estranho ritual:
Se quero estar só e sem você ao meu lado
Jamais espere que eu esteja bem,
se comigo estou mal acompanhado.

Cris Cubas Outono/2008

Terça-feira, Março 11, 2008

Para dias de chuva

Nem a sós

há sol.

Sexta-feira, Fevereiro 15, 2008

monólogo para espelhos

- Não me cai bem esta máscara? Que tal esta? Ou esta? Ah, já não sabes mais quem sou. E se te contar que sou mil, um trilhão. Ou mais: que abismos e multidões inteiras me habitam! O meu retrato eu não olho. O meu retrato está morto.E Dorian Gray me entenderia. É necessário que te mostre a face? Queres bater neste lado também? Não é esta a bagatela cristã? Só Jesus Cristo para mostrar cu, enquanto lhe estupram a alma. Não, não, não, eu não compro barato. Aceite que minha cretinice não vale mais que um salafrário de meia tijela. O meu jogo é sujo e como muitos chocolates provando cada verdade que não acredito. Minhas táticas são ardilosas e vils. No xadrez, por exemplo, é preciso saber que a Rainha é uma puta que come para qualquer lado; que o Rei é apenas um bibelô. O ataque não é a melhor defesa. É preciso observação. Caso sabes o que é isso? Contemplar? Se estou só, não espere que esteja bem acompanhado. Meus demônios internos são meus inimigos. Me pedes calma e sossego? Não posso. Tenho sempre um novo feto a latejar na minha cabeça. Tenho sempre uma lápide pra plantar no coração. Sou um oroboro a comer a própria carne. Se me encontro estrangeiro e no degredo, me deixe exilado. Do muito que eu li e do pouco que eu sei quase nada me resta. Só o que sobra é esse comboio de cordas chamado coração. Ah, pouco original que sou, ao plagiar meu poetas preferidos, pois bem que venham os mortos reclamarem seus direitos, estarei perdido e mal pago. Estou tão vencido como lúcido. Estou tão doente quanto minha fúria. Meu ódio ainda não é meu medo. Meu medo é feito de mentiras. E se sou fadado a ser um mentiroso. Como saberá se não estou a mentir a infâmia da mentira? E se estou apenas a te confundir. Enquanto rio e aplaudo tua confusão, tu me chamarás de louco e me negará três vezes.

Antonio, em frente ao espelho, sorri, está pronto para sair para rua.